Aula de Cachaça
Juarez Becoza
Caro leitor
Vida de colunista de boteco não é mole não. Mas tem lá suas compensações. Principalmente quando minha obscura figura é confundida com a de um cerebral analista gastronômico, e então me convidam para uma boca-livre cheia de sofisticações. Quando isso acontece, deixo feliz o meu querido submundo para curtir por alguns momentos as benesses do lado branco da força.
Dia desses deu-se exatamente isso: fui chamado ao luxuoso hotel Sofitel, em Copacabana (o antigo Rio Palace) para uma degustação de cachaças artesanais. Então eu, que não passo de um cachaceiro, vi-me frente a frente com experientes cachaçólogos (ou seriam cachaciers? Cachacistas?), que ofereceram a mim e meia dúzia de privilegiados duas horas de profundo conhecimento etílico-cultural, extremo bom humor e, claro, muita cachaça da boa.
Tratou-se de uma espécie de mesa-redonda com degustação, realizada na varanda do Bar Horse´s Neck (cuja versão em português, "Pescoço de Cavalo" daria um excelente nome de boteco). A conversa foi ancorada pelo presidente da Associação Brasileira da Cachaça, o publicitário Paulo Magoulas, e pelo professor Luis Fernando Vieira, notório pesquisador da cultura popular e defensor ferrenho do uso dos suspensórios com gravata borboleta.
A dupla coordenou uma espécie de entrevista coletiva com o advogado José Alberto Kede, sumidade no conhecimento da fermentação e do envelhecimento da cachaça, com o médico aposentado Jamil Simão, produtor de cachaças orgânicas da cidade mineira de Jacuí, e com Cláudia Fernandes, presidente da Confraria de Cachaça Copo Furado, que é um desses lugares onde as pessoas se reúnem para beber o de sempre, mas com estilo...
A conversa, devo dizer, foi ótima. Conheci três cachaças esplêndidas. A irritante timidez que me acomete não permitiu que eu participasse mais ativamente do debate. Mesmo assim, só como espectador, pude aprender um pouco mais sobre a branquinha. Aliás, não só sobre ela, mas sobre outras bebidas também. Por exemplo:
- Descobri que o envelhecimento da cachaça não causa, necessariamente, o escurecimento da bebida. E o tempo, aliás, também nada tem nada a ver com isso. Tudo depende, naturalmente, da madeira - ou das madeiras - de que são feitos os barris...
- Aprendi também que o bromato de metila, aquela substância cancerígina presente em todas as bebidas fermentadas, está presente menos na cachaça do que no vinho e até na cerveja, veja só você...
- Descobri que o GL, a medida que define a concentração de álcool numa bebida, é sigla para o nome Gay Lussac, do químico francês que, no século XIX, estabeleceu a fórmula química da fermentação e criou a escala do alcoolímetro.
- Surpreendi-me ainda ao saber porque, afinal, o Conhaque Dreher é tão ruim. É que não se trata de um destilado de uva, como deveriam ser todos os conhaques, mas de um destilado de gengibre!! As razões? Econômicas, com certeza...
- Ouvi de fonte segura que Jamelão, do alto de seus noventa e tantos anos, adora virar copos de conhaque São João da Barra num botequim da Praça XV.
- E fiquei sabendo, por fim, que há hoje no Brasil vodcas sendo feitas de cana-de-açúcar, graças ao famigerado processo de multidistilação, que virtualmente transforma qualquer porcaria num líquido algo insípido, algo incolor, algo inodoro e algo concentrado de álcool. Como as piores vodcas...
Fonte: O GLOBO Blogs